Capítulo Cinco: A Língua da Sogra (Parte II)
A intenção de Wang Shuzhen era bastante clara: arrume logo um emprego e vá embora!
Tal pensamento era perfeitamente compreensível, e Hu Xiaomin também o entendia; desde que ela não o expulsasse imediatamente, seu objetivo já estaria alcançado.
Hu Xiaomin sorriu, mantendo a compostura, e disse:
—Irei procurar um emprego.
Mal chegara a Xangai, Hu Xiaomin recebera a missão de assassinar Cao Bingsheng, e de fato não possuía trabalho formal. Além disso, por precisar executar sozinho o plano “Canhão na Esquina”, não podia ser alocado em nenhuma loja de fachada dos militares.
Nesses últimos dias, Hu Xiaomin aproveitara para buscar trabalho; queria algo que lhe permitisse liberdade de movimento, cuja renda bastasse para sustentar-se e que não o deixasse à mercê de outrem — mas tal ocupação era difícil de encontrar.
Wang Shuzhen disse, com um olhar carregado de significados:
—Só tendo um emprego se tem renda, só assim se pode alugar uma casa. Viver sob o teto alheio não é solução duradoura.
Alguém que nem sequer possuía uma roupa decente ousava ainda alimentar desejos impróprios — era nada menos que sonhar acordado!
Gu Huiying, não querendo ouvir sua mãe dificultar ainda mais a vida de Hu Xiaomin, acenou-lhe com um gesto cortês e disse à mãe:
—Mamãe, estou de saída para o trabalho.
Gu Zhiren apressou-se em dizer:
—Eu também preciso ir para a fábrica, vamos juntos. Xiaomin, fique à vontade, não precisa apressar-se em arranjar trabalho, procure com calma.
Assim que embarcaram no carro, Gu Huiying queixou-se:
—Pai, como pôde deixá-lo ficar em nossa casa?
Ainda que não tivesse conversado com Hu Xiaomin, a intenção dele já estava clara. Veio à casa para pedir-lhe a mão. Isso, de modo algum, podia ser admitido!
As lembranças da infância eram vagas; recordava apenas a figura de um menino que lhe fazia companhia nos jogos de esconde-esconde e caça ao tesouro. Crescendo, soube que fora prometida em casamento antes mesmo de nascer.
À época, achara tudo uma grande brincadeira, mas agora percebia que a farsa ameaçava tornar-se realidade — como não se alarmar?
Gu Zhiren respondeu pausadamente:
—Hu Xiaomin está sem um tostão; não posso deixá-lo dormir na rua, posso?
Ao ver as roupas de Hu Xiaomin, pensou em como ele e a mãe devem ter sofrido todos esses anos, e sentiu-se responsável por tal sina. Se soubesse antes, já teria trazido Hu Xiaomin para Xangai.
Gu Huiying fez beicinho:
—Poderíamos simplesmente dar-lhe algum dinheiro.
Gu Zhiren, assumindo um semblante sério, replicou:
—Se fosse outra pessoa, talvez. Mas ele é diferente; é teu noivo, prometido desde o ventre materno.
A voz de Gu Huiying elevou-se abruptamente:
—Que noivo? Não tenho intenção de casar-me com ele!
O motivo pelo qual Gu Huiying não queria casar-se com Hu Xiaomin não residia em suas vestes humildes ou no infortúnio familiar, mas sim em sua profissão.
Ela era agente da Seção Dois do Departamento de Inteligência do número 76, e sua profissão a destinava a um caminho diverso do comum, tanto na vida, quanto no trabalho e no matrimônio.
Gu Zhiren, com solenidade, declarou:
—A palavra dos pais e a mediação dos casamenteiros: teu compromisso com Xiaomin foi acordado entre mim e o irmão Yingming, e não há margem para discussão. Se ele fizer o pedido, teremos de aceitar!
Gu Huiying, de repente, exibia um sorriso astuto:
—Pai, se ele não propor, o casamento está desfeito?
Gu Zhiren, sem dar muita importância, respondeu:
—Ora, ele já veio até aqui; como não pediria tua mão?
—Isso não é certo — murmurou Gu Huiying.
—O quê? — questionou Gu Zhiren, sem entender.
Gu Huiying, agarrando o braço do pai e sorrindo coquetamente, disse:
—Nada, já cheguei ao alojamento, vou descer.
Gu Huiying era agente secreta, e não apenas isso: era agente do temido número 76. Fazer Hu Xiaomin desistir do pedido, ou até mesmo sumir com ele, seria tarefa trivial.
O nome do número 76 da Avenida Jessfield era temido por toda a cidade; para não preocupar a família e facilitar seu trabalho, Gu Huiying mentia, dizendo trabalhar no alojamento do número 55 da mesma avenida.
Entrava no alojamento, atravessava o beco pelos fundos e, contornando o quarteirão, chegava ao número 76. O alojamento ficava na diagonal, e ela entrava pela porta lateral. O Departamento de Inteligência possuía três seções, e ela servia na Segunda, responsável pela revisão das informações.
As informações do número 76 precisavam ser compiladas e revisadas diariamente, em três vias, arquivadas separadamente.
Ao chegar ao escritório, Gu Huiying apressou-se em telefonar para casa.
—Mamãe, aquele tal de Hu está mesmo se encostando em nossa casa?
Wang Shuzhen suspirou:
—Teu pai concordou, que posso fazer? Filha, o que você pretende?
Gu Huiying respondeu, risonha:
—Claro que… vou fazê-lo desistir. Não quer casar-se? Se fosse pedir outra moça, tudo bem. Mas se ousar pedir a minha mão, não pode vir de mãos vazias, não é? O dote, o banquete, o casarão, o automóvel… cada um custa centenas ou até milhares, só de ouvir já desanima qualquer um.
Os olhos de Wang Shuzhen brilharam, e ela comentou, sorrindo:
—Minha filha, você sim tem jeito para isso.
Hu Xiaomin mal tinha o que comer; ao saber do preço de um casamento, se não morresse de susto, ao menos desistiria.
Querendo Hu Xiaomin morar em sua casa, Wang Shuzhen não podia se opor abertamente, mas deixava clara sua posição. Por exemplo, o quarto que lhe fora destinado ficava atrás da cozinha, no térreo — o aposento reservado aos criados.
Tal menosprezo não incomodou Hu Xiaomin: bastava-lhe estar sob o teto dos Gu, e sua missão já estaria meio concluída. O resto dependeria de obter informações de Gu Huiying.
Hu Xiaomin fez uma profunda reverência a Wang Shuzhen, agradecendo comovido:
—Muito obrigado, senhora. Este lugar é amplo e luminoso, muito melhor do que o anterior.
Wang Shuzhen pretendia humilhá-lo, jamais imaginou que um aposento de criado deixaria Hu Xiaomin tão satisfeito.
Tirando o lenço, tapou o nariz com ar de desdém:
—Fique por ora. Se precisar de algo, procure Ah Fu.
Hu Xiaomin perguntou:
—Senhora, quando Huiying retorna do trabalho?
Wang Shuzhen hesitou antes de responder:
—Huiying só chega à tarde. Xiaomin, você por acaso deseja…
Hu Xiaomin assentiu:
—Sim, minha mãe dizia que esta é uma união prometida antes do meu nascimento. Se os senhores não se opuserem, gostaria de cumprir o desejo dela.
Hu Xiaomin percebera a preocupação de Wang Shuzhen; não fosse o plano “Canhão na Esquina”, ele tampouco mencionaria tal casamento.
Wang Shuzhen lançou-lhe um olhar zombeteiro e disse, com desdém:
—De fato, o compromisso foi feito, mas casar não é assim, de qualquer maneira.
Hu Xiaomin respondeu solenemente:
—Pretendo fazê-lo com todas as formalidades.
Se um dia realmente viesse a desposar Gu Huiying, não permitiria que a família Gu o menosprezasse. Mas sabia, no íntimo, que tal dia provavelmente jamais chegaria.
Wang Shuzhen elevou a voz:
—Evidente que exige formalidades! Certas coisas seu tio Gu não pode dizer, então eu digo: segundo as regras, o noivo deve oferecer dote, bancar o banquete… Você talvez não tenha parentes em Xangai, mas nós teremos ao menos cinquenta ou sessenta mesas. Além disso, carro alugado já não basta; é preciso um automóvel. Precisa também de uma casa nova…
Hu Xiaomin perguntou, impassível:
—Há mais condições?
Wang Shuzhen riu friamente:
—Volte quando tiver casa e carro.
Hu Xiaomin era como pato cozido — só o bico permanecia firme. Já vira muitos desse tipo: palavras bonitas, mas sem ação.
Hu Xiaomin não trouxera bagagem; aproveitou para sair e foi ao número 7 da Airenli, residência de Qian Heting, chefe do novo segundo grupo.
Airenli ficava na Concessão Francesa, ao sul da Rua Fuxu. Ocorrendo algo ali, bastava atravessar a Rua Fuxu para chegar à Concessão Internacional.
Hu Xiaomin foi primeiro ao número 7 da Yan Nian Fang, disfarçou-se e saiu a pé; agora vestia camisa e calça cinzentas, sapatos de couro gastos, dentes um tanto salientes — meio ocidental, meio chinês — já com aspecto típico dos malandros de Xangai.
Trocou de riquixá algumas vezes e, passando diante do número 7 da Airenli, certificou-se de que nada havia de estranho; desceu adiante, observou os arredores e só então retornou.
Encontros como esse, ainda que triviais, não admitiam descuido. Para um agente durar, só redobrando a cautela. Em tudo, o excesso de zelo jamais era erro.
Ao ouvir a senha — três batidas longas e duas curtas — Qian Heting abriu a porta, recebeu Hu Xiaomin e perguntou ansioso:
—Como vão os progressos?
Hu Xiaomin suspirou:
—A mãe de Gu Huiying impôs as condições: para desposá-la, exige-se três cartas e seis presentes; se não mais que as demais famílias, ao menos não menos. Segundo os costumes de Xangai, além do banquete e da nova casa, é preciso dar dote à noiva — para famílias comuns, dois mil ou quatro mil; para os Gu, oito mil não seria exagero. Além disso, a casa nova não pode ser apartamento; precisa ser uma casa ao estilo ocidental, de preferência uma vila com grande jardim. Exigem ainda um automóvel; não precisa ser de luxo, mas custa dois ou três mil ienes.
Qian Heting exclamou:
—Tua sogra, por acaso, com uma só bocada, não suga o rio Huangpu inteiro?
Hu Xiaomin, indignado:
—Na hora, tive vontade de enfiar uma granada na boca dela.
Qian Heting, sério, disse:
—Segundo informações seguras, o governo colaboracionista de Wang planeja em breve o chamado Sexto Congresso Nacional do Kuomintang. Agora que está hospedado na casa dos Gu, deve, através de Gu Huiying, apurar a data e o local exatos.
Hu Xiaomin respondeu:
—Farei o possível.
Qian Heting advertiu:
—Por isso, é imprescindível que permaneça na casa dos Gu. Suporte as humilhações, não haja por impulso.
Hu Xiaomin sorriu:
—Chefe, fique tranquilo. Não arredarei pé dos Gu sem cumprir a missão.
Hospedar-se ali fora plano seu; e pelo trato de Gu Zhiren, poderia ficar o tempo que quisesse.
ps: Peço, humildemente, o apoio de uma recomendação. Muito obrigado.