Volume I: A Chegada à Terra de Outro Mundo Capítulo Seis: O Desastre que Eu Desconhecia
No leste, o sol erguia-se silenciosamente, dissipando a noite sem fim e o fulgor incomparável das estrelas. Assim que Gongsun Xin abriu os olhos, viu que ainda estava deitado de lado, com a cabeça apoiada, observando-o, Tamamo-no-Mae. Desta vez, porém, Gongsun Xin não teve grande reação; virou-se, decidido a dormir mais um pouco.
— Master, levante-se, levante-se, venha ver a pequena Tamamo~ MIKon~ —
Vendo que Gongsun Xin, ao despertar, apenas lhe lançara um olhar e não lhe dera atenção, Tamamo-no-Mae começou a puxar-lhe o cobertor, fazendo birra. Gongsun Xin, irritado, travou com ela uma pequena batalha pelo domínio do leito.
— Estou exausto de ontem, não me incomode, deixe-me dormir só mais um pouco.
— Master, levante-se, hoje voltaremos a lutar, quem sabe conseguimos ativar todas as informações do espírito de Okita-san.
— Não quero. Assim está bom. Não quero acabar tossindo sangue durante a luta!
Era brincadeira, mas aquela habilidade inerente de fraqueza extrema, típica dos doentes, era mais confiável do que a má fama dos Tohsaka. Já que agora não se manifestava, por que buscá-la? Sobre o status de serva? O painel de Okita-san... Bem, melhor deixar para depois.
Contudo, sob a incessante algazarra de Tamamo-no-Mae, Gongsun Xin acabou perdendo qualquer traço de sono. Ainda assim, decidiu firmemente que não sairia do quarto naquele dia. Levantou-se, arrumou a cama e, em seguida, pôs-se a cultivar-se segundo o método “Nuvens Ociosas e Garça Selvagem”.
Tamamo-no-Mae, ao ver Gongsun Xin absorto em sua prática, pensou consigo mesma: “Talvez, se a energia espiritual for suficientemente forte, tudo se ative...” e assim se consolou. Sentindo-se entediada por permanecer no quarto, saiu furtivamente e, como de costume, colou um talismã na porta.
Tendo feito tudo isso, ao virar-se, deparou-se com Lin Ziguan parado atrás de si, fitando-a. Tamamo-no-Mae franziu levemente o cenho, mas ainda assim cumprimentou-o respeitosamente.
— Mestre Lin, bom dia. O Master está cultivando-se agora, talvez seja melhor procurá-lo mais tarde.
Disse isso, um tanto constrangida. Lin Ziguan, porém, não respondeu de imediato, apenas a olhou; após um breve silêncio, falou:
— Hoje não vim procurar por Axin, vim falar com você. Já que ele está cultivando-se, não vamos perturbá-lo.
Dito isso, sentou-se à mesa de pedra diante do quarto, fazendo-lhe um gesto para que se sentasse também. Tamamo-no-Mae hesitou, suspirou, mas acabou por sentar-se frente a Lin Ziguan.
— Senhorita Tamamo, você tem seus próprios objetivos, não é?
Tamamo-no-Mae ficou surpresa, mas não escondeu; assentiu em silêncio, sem dar maiores explicações.
— Não me importa quais sejam seus propósitos, mas não quero ver Axin ferido.
Enquanto falava, Lin Ziguan liberou sua poderosa aura; ao mesmo tempo, cinco moedas de cobre giravam ao seu redor, e no céu claro surgiram sete estrelas. Vale mencionar que, apesar de a Terra Celeste diferir profundamente do mundo de Tamamo-no-Mae e Gongsun Xin, o céu estrelado era surpreendentemente semelhante, até mesmo os nomes das estrelas eram idênticos. Agora, as sete estrelas no firmamento formavam uma concha, e a quarta brilhava intensamente.
Tamamo-no-Mae sorriu amargamente; ela própria não desejava o contrário. Embora esse não fosse seu mundo, e mesmo não possuindo laços com o velho à sua frente, diante dele sentia-se sempre como uma criança envergonhada por alguma falta cometida. Não, ela era de fato essa criança. “Esta alma... É idêntica à ‘dele’.” Tamamo-no-Mae contemplou o velho e não pôde deixar de suspirar.
— Mestre Lin, não se preocupe. Eu também não desejo que o Master se machuque. Foi graças ao seu chamado que vim a este mundo, e não o deixarei perder-se pelo caminho.
Ao ver o leve traço de tristeza no belo semblante de Tamamo-no-Mae, Lin Ziguan suavizou o tom, recolhendo seus artefatos; no céu, a estrela perdeu o brilho.
— Ainda que o conteúdo da história deixe a desejar, farei com que o desfecho seja belo.
Terminada a frase, Lin Ziguan se retirou, deixando Tamamo-no-Mae sentada à mesa de pedra, imersa em recordações e decidida: o desfecho da história haveria de ser feliz. Quanto ao conteúdo... A pequena Tamamo faria o possível.
“Tamamo, Tamamo, minha energia espiritual está voltando a desaparecer. Desta vez, sinto nitidamente que é o espírito que a absorve.”
Pouco tempo depois, Tamamo-no-Mae escutou a voz de Gongsun Xin. Rapidamente recompôs-se, não querendo que ele a visse naquele estado, levantou-se e, num salto, lançou-se sobre ele. Desta vez, Gongsun Xin não a afastou nem evitou; permitiu que ela se aconchegasse a ele. Surpresa, Tamamo-no-Mae ergueu os olhos para fitá-lo.
— Tamamo, o que houve? Estás tão abatida.
— Nada, apenas saudades de velhos conhecidos.
Gongsun Xin acariciou a cabeça de Tamamo-no-Mae e foi sentar-se à mesa de pedra.
— Velhos conhecidos... Quando cheguei a este mundo, no início estava animado, afinal, sempre fui alguém que foge das coisas, pensei que enfim escapara daquele mundo. Mas, refletindo melhor, percebi que jamais voltaria a ver minha família, meu pai, minha mãe, meus amigos.
— Naquele tempo, sentia-me perdido e impotente. Sempre que pensava neles, as lágrimas me vinham aos olhos. Agora, após dois anos, ainda penso neles de vez em quando, mas sei que nunca há histórias perfeitas. O início já está traçado, não posso mudá-lo; o fim, ainda desconheço, mas só posso tornar o conteúdo mais fascinante.
Concluindo, Gongsun Xin sorriu para Tamamo-no-Mae e apertou-lhe a mão.
— Não importa o passado. Agora, estamos aqui.
Tamamo-no-Mae fitou Gongsun Xin em silêncio, pensando: “O nome é o mais breve dos feitiços. Quando o nome é selado, ali tudo se decide; está na hora de preparar-me para enfrentar o que vier.”
— Master~
— Hm?
— Vamos à batalha!
— !!!
...
Nas florestas próximas ao portão da Montanha Yunhe, cinco discípulos externos formaram um grupo para cumprir uma missão de erradicação considerada difícil: enfrentar a matilha de lobos de vento humanoide que antes Gongsun Xin rejeitara. Felizmente, ele recusara, pois logo após partir para caçar javalis, os patrulheiros internos relataram um aumento no número dos lobos, alterando a dificuldade da missão no salão de provações externo.
— Irmão Chen Ke, há vestígios de lobos de vento à frente — alertou uma jovem com uma águia espiritual pousada no ombro.
Chen Ke acenou e sinalizou para que todos avançassem. Correndo, chegaram ao local indicado, mas não encontraram nenhum lobo. A jovem franziu as sobrancelhas.
— Li Na, o que houve? Onde estão os lobos?
Li Na não soube explicar. Claramente, com sua habilidade “Olho de Águia”, vira rastros de energia espiritual dos lobos, mas agora não havia sinal algum.
Chen Ke adiantou-se, sem repreender Li Na, e ordenou aos demais:
— Espalhem-se e procurem, mas não se afastem muito. Cautela acima de tudo. Se houver perigo, deem o sinal.
Como um dos poucos domadores humanos de nível máximo entre os discípulos externos, Chen Ke era forte candidato à seita interna, e suas palavras tinham peso. Ninguém mais culpou Li Na, todos dispersando-se para buscar pistas.
Não demorou. Um discípulo que seguira para noroeste soou o alarme. Todos acorreram rapidamente e, ao chegarem, não viram perigo algum — apenas cadáveres de lobos de vento, já mortos.
— Quem fez isso?! — Logo, um dos membros do grupo resmungou, frustrado. Depois de tanto esforço, foram enganados duas vezes e, por fim, até suas presas lhes foram roubadas.
Chen Ke ajoelhou-se junto a um dos corpos, examinando-o com cuidado. Com uma faca, abriu-lhe a cabeça, e seu semblante tornou-se mais grave ainda.
— Nenhuma ferida. E o núcleo espiritual sumiu.
Todos ficaram perplexos. Como seria possível alguém matar uma besta espiritual sem feri-la, e ainda extrair-lhe o núcleo sem danificar o corpo?
Enquanto todos ainda buscavam explicação, dispostos a partir, dos cadáveres dos lobos emergiu uma fumaça negra. Em instantes, a fumaça tomou a forma de sombras humanas, distorcendo-se constantemente. Mesmo os mais lentos perceberam o perigo; todos invocaram seus artefatos, prontos para o combate. As sombras, revoltas, erguiam-se dos corpos dos lobos, mas lentamente. O animal espiritual de Chen Ke era um Leão de Chamas de nível celestial, que cuspiu uma torrente de fogo sobre uma das sombras. A sombra retorceu-se nas chamas até desaparecer.
— Vamos voltar e relatar isso aos anciãos — decidiu Chen Ke prontamente, e todos acataram sem hesitar.
...
— Sombras sem corpo... Isso nunca ocorreu antes — murmurava Lu Ning, sentado no trono do salão, lendo as notícias recém-chegadas. Não conseguia determinar a natureza daquilo, e ainda pensava nas estranhas perturbações nas linhagens da montanha dos fundos: “Haverá ligação entre esses dois eventos?” Não sabia. Naquele instante, uma nova onda anômala abalou as linhagens da montanha de Yunhe. Lu Ning, esquecendo-se das sombras, deixou o salão e partiu para os fundos da montanha.
...
Ao entardecer, os últimos raios de sol derramavam-se sobre o salão principal da Seita Tian Shi, tingindo-o de beleza rara. Mas o patriarca não tinha tempo para contemplar paisagens; em apenas três dias, o Pavilhão Yunhe enviara duas vezes, a todo custo, mensagens urgentes por técnica de luz viajante, o que já o surpreendera, suspeitando que algo estranho tivesse ocorrido com Gongsun Xin.
— Sombras humanoides? Perturbações frequentes nas linhagens?
O patriarca ponderou. Este mundo realmente não permitia descanso — justamente nos momentos mais críticos, surgiam problemas de toda ordem.
— Grande Ancião.
— Mestre, quais são suas ordens?
— Envie Lu Kai ao Pavilhão Yunhe, no sul, para investigar ambos os incidentes e, aproveitando, verifique a situação de Gongsun Xin.
— Como ordenar.
O Grande Ancião recebeu respeitosamente a mensagem secreta enviada pelo Pavilhão Yunhe e saiu para cumprir a missão. O patriarca da Seita Tian Shi ficou só, de pé diante do grande salão, as mãos cruzadas atrás das costas.
— Mais depressa, mais depressa... Em breve, este mundo será salvo por minhas mãos.