Capítulo Quatro, página cento e nove
Shinji Kanbara folheou levemente o caderno: ao todo, cento e nove páginas. A maioria delas já ostentava um ponto final, sinalizando o fim de uma vida. Apenas uma fração ínfima persistia, resistindo à tortura dos olhares que se esgueiravam pelas frestas. Apesar disso, ele acreditava que a resistência desses poucos não duraria muito; quanto mais prolongassem sua luta, mais doloroso seria o tormento mental. Logo, chegou à centésima nona página, onde estava registrado o nome de Ichirō Nakano. Bastou uma rápida leitura para perceber que se tratava de mais um apreciador da violência doméstica. Após casar-se e ter filhos, sua família passou a viver sob a sombra do próprio algoz. Bastava que algo lhe desagradasse no trabalho, e toda a frustração era despejada sobre os entes queridos. Essa situação arrastava-se por dez longos anos. A morte de tal flagelo era, em última análise, uma contribuição à sociedade. Ele não se demorou na leitura; todas as histórias ali eram variações sobre o mesmo tema, violência doméstica, e tantas repetições acabavam por sufocar o espírito. Virou para a segunda página, contemplando os quase quarenta mil pontos de lenda, e ponderou se não seria hora de compor um segundo mito urbano. Afinal, o mito de "O Olhar nas Fendas" não parecia ser eficiente o suficiente para arrastar certos infames ao inferno. Em mais de um mês, apenas cento e nove páginas — cerca de três pessoas por dia. Assim, a obtenção de pontos de bem e mal também não era das mais eficientes. Esses pontos eram vitais para sua existência, pois somente eles podiam estender sua longevidade. Quando atravessara para este mundo, o caderno lhe mostrava apenas trinta dias de vida, e ele não ousava experimentar se, ao chegar a zero, a morte seria inevitável; apesar da travessia, ao menos o corpo se tornara jovem novamente. Por isso, lutou por um mês, acumulando pontos de bem e mal que lhe renderam mais noventa dias de vida. Quanto à aquisição desses pontos, começava a compreender: se um perverso era morto pelo mito urbano que ele criara, ganhava mais pontos. Quanto a mortes acidentais de pessoas boas, se isso reduzia ou até descontava pontos, ele não sabia; nunca experimentara tal situação. Afinal, apenas um mito urbano fora escrito até então. Os pontos de lenda, por sua vez, não serviam para si próprio, mas apenas para influenciar o mito urbano. Mitos urbanos, em geral, têm caráter regional, o que é tanto sua essência quanto sua limitação. Para ultrapassar tais barreiras, era preciso recorrer aos pontos de lenda. Entretanto, ele pouco se debruçara sobre o tema; durante todo o mês, pressionado pela contagem regressiva da morte, sua mente só pensava em sobreviver. Agora, com a espada de Dâmocles afastada de sua cabeça, enfim respirava.
Ainda assim, era preciso apressar-se em escrever um segundo mito urbano; afinal, "O Olhar nas Fendas" matava devagar demais. A maioria dos violentos domésticos era composta de pessoas de personalidade distorcida e reprimida, invisíveis ao olhar superficial. Sufocados pelas pressões sociais, descarregavam todo o peso sobre suas famílias, e era improvável que buscassem mitos urbanos na internet. Os relatos nas páginas posteriores de "O Olhar nas Fendas" demonstravam que tais pessoas apenas encontravam a foto por acaso, ativando as regras assassinas do mito, e então sucumbiam à tortura até a morte. Agora, com apenas noventa e dois dias de vida — três meses —, ainda era um prazo exíguo; se não fosse a falta de pontos de lenda, já teria escrito um novo mito há tempos. Além disso... precisava também considerar como garantir seu sustento. Tóquio, afinal, era uma metrópole internacional, abrigando um terço da população japonesa. O custo de vida era elevado, e ele não podia simplesmente consumir os recursos até o fim. O antigo dono do corpo tinha pais, mas agora era órfão. Após o pai casar-se novamente e planejar a lua de mel, o avião sofreu um acidente e todos os passageiros experimentaram um bungee-jump sem cordas, numa aventura fatal. Isso lhe trouxe certo alívio. Embora tal pensamento seja cruel, atravessar para Tóquio era aceitável; porém, chamá-los de pais japoneses era tarefa impossível. Além disso, havia uma irmã. Por causa do acidente, após o funeral, a chamada irmã voltou à universidade. Somando tudo, conviveram apenas alguns dias, mantendo-se estranhos. Agora, ela residia na universidade, e ambos não se viam há um ano, sequer uma ligação; eram, de fato, desconhecidos. Portanto, essa irmã era como se não existisse. No fundo, era melhor assim; habituara-se à solidão, e a chegada de algum parente seria um verdadeiro incômodo. Esperar que a irmã o sustentasse? Nem sequer lhe passara pela cabeça tal ideia. O que ocupava sua mente era o que ocorrera à tarde no clube... "Quem é, afinal, essa Chie Shinkawa?" Ao lembrar da garota, Shinji Kanbara não pôde evitar uma ruga na testa. O conto que ela narrara ao entrar no clube era, evidentemente, o mito de "O Olhar nas Fendas" que ele próprio escrevera. Mesmo deitado no sofá, não dormira; apenas relaxara após o término da narrativa. Mas o relato de Chie Shinkawa era tão vívido, quase como se ela o tivesse testemunhado diretamente. Entretanto, ao ver aquele olho, não havia salvação.
Embora tivesse registrado no caderno que quem visse a foto estaria constantemente sob o olhar do olho, tal era apenas um elemento do caderno. Na realidade, o mito se espalhava pela internet, mas apenas como "quem vê esta foto sofrerá algo terrível". Ou seja, a não ser que Chie Shinkawa tivesse realmente visto a imagem, ou conhecesse alguém marcado pelo olhar nas fendas, não teria como saber detalhes tão precisos. Ao observá-la brevemente, percebera que sua postura era leve, emoções tranquilas, nada indicando ser filha de um lar violento. Além disso... "Polícia?" Em um mês, já mais de cem pessoas haviam sido mortas pelo mito, fora alguns que ainda lutavam. Ser notado pela Polícia Metropolitana era, portanto, algo inevitável. Era possível que algum parente de Chie Shinkawa trabalhasse na polícia; ao compreender isso, Shinji Kanbara relaxou discretamente. Não temia os policiais; afinal, era apenas o criador do mito urbano, não o executor dos assassinatos, e nunca poderia ser rastreado. Receava, sim, os onmyoji, miko ou magos. Durante o mês, não encontrara ninguém com poderes sobrenaturais; suspeitava até que este mundo fosse ordinário. Mas era apenas uma hipótese; não ter encontrado não significava inexistência. Durante esse tempo, só frequentara casa e escola, evitando passar próximo a templos ou santuários, por temor de ser descoberto com o caderno. Aquilo era sua essência vital; nunca permitiria que alguém soubesse, tampouco buscaria ajuda junto a santuários ou templos. Pessoas poderosas nem sempre eram bondosas; o coração humano é insondável, e quem sabe o que fariam ao descobrir tal segredo? Melhor decidir o próprio destino do que confiar a terceiros. A experiência mostrava que, no fim, só podia contar consigo. Após desvendar as regras do caderno, enfim alcançara uma estabilidade precária. Desde que continuasse a criar mitos urbanos e acumular pontos de bem e mal, sua longevidade cresceria. E até... Com o caderno, ultrapassar os limites da existência humana era tarefa trivial.