Capítulo Um: A Assembleia das Cotas de Sobrevivência
Abrigo subterrâneo, grande sala de reuniões.
A luz era intensa, mas o ambiente, opressivo.
— Nossos equipamentos, ao todo, podem sustentar a vida de quinhentas mil pessoas.
— Os familiares de todos aqui presentes, os operários que mantêm os sistemas funcionando, bem como as forças armadas de todas as facções… somando tudo temos cerca de quatrocentos e oitenta e seis mil indivíduos...
— Alteza, Alteza, está ouvindo?
Zhang Ran despertou abruptamente do torpor. Um grupo de homens e mulheres, todos austeramente vestidos em trajes formais, debatia acaloradamente ao redor da mesa redonda. Expressões como “cinco mil pessoas”, “seis mil pessoas” saltavam de suas bocas, como se estivessem repartindo vidas humanas.
O que está acontecendo… Eu viajei no tempo?!
Entre eles, um homem de meia-idade trajando terno e gravata postou-se ao lado de Zhang Ran:
— Alteza, eis o plano de realocação populacional. Peço-lhe que o examine.
— Por favor, assine seu nome na segunda página, na décima oitava e na última.
O homem bateu suavemente na mesa, sua voz rouca soando grave:
— Alteza, sabe tão bem quanto nós: nosso pequeno universo só pode transportar essa quantidade de pessoas. Se excedermos…
— Todos morreremos!
Zhang Ran estava atônito.
Esta era a primeira situação que enfrentava após sua transmigração: uma cabala de altos membros do gabinete, cada qual com seus próprios interesses ocultos, obrigando-o a assinar uma ordem administrativa absurda.
Quando ouvira pela primeira vez o termo “Alteza”, sentira um breve júbilo – ele havia parado em alguma dinastia desconhecida e se tornado o herdeiro do trono!
Riquezas, glórias, um harém de três mil beldades – tudo isso parecia ao alcance da mão.
Mas logo percebeu que se tratava de uma monarquia constitucional moderna. O poder da realeza estava esvaziado; o maior valor do imperador era sentar-se diante da televisão como um mascote nacional. Bastava assinar os decretos, sem qualquer direito a oposição.
Não, não era bem assim.
Agora era uma era apocalíptica! O poder real voltara a ter algum peso, pois era capaz de unir corações e mentes.
Analisando as informações em sua mente, Zhang Ran engoliu em seco, baixou a cabeça e examinou as palavras no documento.
“Plano de Refúgio de Emergência diante de Desastres Naturais Extremos”.
O arquivo era extenso, mais de cem páginas densamente preenchidas, dezenas de milhares de palavras, conteúdo intrincado.
Resumo: O universo sofrera a “Grande Ruptura”, a civilização humana estava à beira da extinção!
Impulsionado pela energia escura, o universo expandia-se sem cessar, tornando sua “membrana” cada vez mais frágil. E os corpos celestes de grande massa funcionavam como pontos de tensão nessa membrana. Quando a expansão universal atingisse um certo ponto, incapaz de suportar tais forças, a membrana se romperia, e esses astros cairiam em singularidades de alta dimensão.
A singularidade — o ponto de curvatura infinita do espaço-tempo, origem do Big Bang.
Por isso, o Sol havia “desaparecido” abruptamente dez anos antes!
Sem luz, a Terra mergulhou num inverno absoluto; os poucos sobreviventes refugiaram-se em abrigos subterrâneos, subsistindo à míngua com o calor residual do planeta.
Contudo, segundo a teoria das membranas de alta dimensão, nem mesmo a Terra era segura. Sua massa era demasiada, e ainda poderia causar uma ruptura espacial.
Por isso, nos últimos dez anos, os quarenta milhões de sobreviventes restantes empenharam-se na construção de uma gigantesca nave estelar.
Somente deixando a Terra haveria esperança de salvação.
Mas havia um problema: a tecnologia era rudimentar!
A humanidade, para viver, precisava comer, beber, satisfazer necessidades – consumia recursos. O máximo que os equipamentos do pequeno universo podiam comportar eram 500 mil pessoas. E isso já era o limite.
A população atual do planeta? Quarenta e cinco milhões e sessenta mil.
Em outras palavras, apenas um em cada noventa sobreviveria!
Por isso, todas as facções lutavam, nesta reunião, pelas vagas de sobrevivência!
Ao Príncipe Herdeiro do Grande Xia cabia apenas assinar, ao fim, o decreto que selaria o destino de milhões.
À sua frente, o Primeiro-Ministro Jia Yiwei disse em tom grave:
— Alteza, é preciso ser implacável e ratificar este acordo!
— Esta decisão não pode ser revelada ao povo, sob pena de insurreição. Por isso a reunião é secreta.
— Já acordamos a composição populacional dos sobreviventes. Vossa Alteza será o primeiro a embarcar na nave. À família real reservamos cinco mil vagas – um número nada desprezível.
— Assine, por favor.
Uma câmera apontou para Zhang Ran. Todos os olhares convergiram sobre ele.
A caneta hesitava entre seus dedos; seu cérebro trabalhava a todo vapor.
Um instinto primordial alertava-o: algo estava errado!
Muito errado.
Nada era tão simples quanto parecia.
A sala comportava apenas trinta pessoas – mas todas eram figuras de proa, grandes magnatas, líderes militares. Nenhuma presença era trivial.
Tinham expressões variadas: alguns plácidos, outros tensos.
Espere… o que era aquilo?
Uma arma!
O ancião de cabelos brancos tremia levemente as pernas, enquanto mantinha a mão no bolso, segurando um revólver!
Viera armado para a reunião!
Ao mesmo tempo, a senhora loura ao lado enfiava a mão em sua bolsa, atenta ao velho.
Que reunião era aquela… Uma reunião secreta digna de Gotham?
Zhang Ran baixou a cabeça, suor frio escorrendo da testa, fingindo ler atentamente, enquanto espiava a sala pelo canto dos olhos.
Mesmo o Primeiro-Ministro Jia Yiwei, ao seu lado, mantinha a mão firmemente sobre certo ponto.
Ali, ocultava-se outra pistola.
Sim, era um verdadeiro banquete fatal.
A humanidade não era monolítica.
O bolo era pequeno: uma mordida a mais para um, uma a menos para o outro.
Era uma luta de vida ou morte!
A realeza tornara-se o alvo mais vulnerável da sala.
O velho imperador, líder espiritual, falecera de doença há um mês.
O Príncipe Herdeiro do Grande Xia, um jovem libertino recém-chegado à maioridade, ignorante de tudo, ainda com um quê de inocência, pensando em moças bonitas momentos antes, fora forçado a participar desta reunião.
Se o herdeiro não se transformasse em cordeiro, quem seria?
A família real deveria receber cinquenta mil vagas, mas agora restavam apenas cinco mil!
E Zhang Ran, ainda mais azarado, reencarnara no corpo desse jovem tolo.
— Agora, lerei os números que todos acordaram. — Zhang Ran pegou o plano com mãos trêmulas, a voz vacilante, suor escorrendo em cascata.
Pensava febrilmente, mas não encontrava saída.
— Consórcio Bariba: 86 mil pessoas... Alguém se opõe?
Ao ouvir o número, um dos presentes, um homem magro, aplaudiu energicamente.
A sala mergulhou numa onda de murmúrios: 86 mil era de fato excessivo.
A previsão inicial era de apenas 74 mil.
O aumento se devia, em grande parte, ao fato de que um bom pedaço desse “bolo” fora arrancado diretamente da porção reservada à realeza.