Capítulo Um: A Ama de Elite
Ainda me custa acreditar em tudo que vejo agora. Depois de ter sido forçada ao desemprego logo após receber uma homenagem, de ver desmoronar o sonho dourado de um casamento com um magnata, de suportar o escárnio e as acusações de toda a internet, eu pensava que nada mais seria capaz de abalar meu coração. No entanto, só quando me disseram que havia voltado ao passado, percebi o quão risível era minha ingenuidade em acreditar, sem reservas, em pulseiras de monitoramento cardíaco, em histórias de chineses retornados do exterior... O mundo é deveras extraordinário. Achamos ter experimentado todos os altos e baixos da vida, sem imaginar que a verdadeira montanha-russa apenas começara a se mover...
“Tac-tac-tac~”
O som de batidas na porta era suave, mas meu sono leve não resistiu.
“Mana Lu, já acordou?” Veio a voz cautelosa do outro lado da porta, prenunciando o colapso definitivo das minhas férias de verão. Peguei, ao acaso, um casaco, envolvi-me displicente e, trôpega, abri a porta.
O rapaz do lado de fora era uma cabeça mais alto que eu; entreabrindo os olhos, vi sua camiseta branca, impecável.
“O que foi?” Esfreguei os olhos, esforçando-me para arrancar uma frase da garganta.
Ele coçou a cabeça, constrangido: “Bem... mana Lu... que tal... que tal falarmos depois que você acordar de vez?”
Soltei um suspiro de alívio e murmurei: “Está bem.” Fechei a porta, deixando do lado de fora um rosto atônito.
Por fim, de volta à cama, recordei a conversa da noite anterior.
“Lu, minha querida...” O velho hesitava, levantando-se e sentando-se várias vezes, deixando-me constrangida.
“Ah, seu Lou, se precisar de algo, é só pedir! Agora que o senhor se mudou para cá, somos vizinhos, afinal! Parente distante não vale tanto quanto vizinho próximo — é natural nos ajudarmos. Não hesite em me pedir nada!”
“Lu, você é mesmo uma boa moça! Pois não vou mais me fazer de rogado, que excesso de cerimônia seria falta de consideração.”
“Pois diga!” Bati no peito, querendo mostrar o quanto eu era uma vizinha prestativa. E então...
“Lu, cuide do Kevin para mim por uns dias!”
“Cof, cof, cof...” Quase cuspi sangue ao ouvir isso.
O ancião me fitava com gratidão, os olhos quase marejados: “Kevin é um bom menino, embora já tenha dezesseis anos, sofre de uma cardiopatia congênita, não pode ficar sozinho. Preciso, por motivos de negócios inadiáveis, ausentar-me por certo tempo — talvez poucos dias, talvez um mês. Não posso deixá-lo só. Ouvi da dona Wang que você é professora, está de férias, então, com muita vergonha, venho pedir esse favor.”
O senhor despejou essas palavras como uma metralhadora, sem dar-me tempo de reagir. E, vejam só, ainda chama a dona Wang de “irmãzinha” como se fosse jovem; não sei se ela, ao ouvir isso, teria vontade de cuspir sangue como eu.
“Mas, seu Lou...”
“Não se preocupe com a autonomia do menino! Basta guardar este frasco de comprimidos para emergência cardíaca!”
“Mas eu...”
“Também não se preocupe com despesas. Aqui estão cem mil yuan — para a alimentação dele, o que sobrar é seu pelo incômodo.”
Fiquei muda diante da pilha de notas sobre a mesa de pedra.
“Mas, seu Lou, quanto pode gastar um menino... Por que tanto dinheiro...?”
“Ingênua, o restante é recompensa pelo seu trabalho, e bem merecida, bem merecida! Hahaha!”
Assim, depois de me ver livre de um bando de crianças agitadas, caí nas garras de outro garoto... Desânimo absoluto.
Com esses pensamentos, não consegui mais dormir. Resolvi levantar e me preparar — afinal, quem recebe paga, deve cumprir o prometido. Era hora de conhecer melhor meu novo tormento.
Abri a porta e vi que Kevin, não sei quando, já havia colocado uma espreguiçadeira no pátio, tomando sol. Ao me ver, sentou-se apressado, o rosto todo enrolado de constrangimento, e disse, aflito: “Mana Lu, me desculpe... incomodei seu descanso...”
“Não faz mal.” Ao ver aqueles cílios longos piscando, meu coração se enterneceu, o mau humor matinal quase se dissipou. “Precisava de algo?”
“O vovô Lou disse ontem que, não importa para onde eu vá, tenho que ir com você, senão a pulseira apita.” E levantou o pulso esquerdo, mostrando-me.
“Ah... então é isso...” Ontem o velho Lou me deu uma pulseira esquisita: se Kevin tiver problemas no coração, ela alarma; se ele se afastar mais de quinhentos metros, ela alarma; se alguém que não cadastrou a digital tocar na pulseira, ela alarma... Um monitor cardíaco insano, quase cruel.
“Só queria ir ao supermercado...” Ele deu de ombros, resignado.
Suspirei em silêncio — devia ter sido mais firme e recusado ontem. Não! Minha bondade excessiva me impediu de negar o pedido de um ancião.
“Certo, deixe-me lavar o rosto antes. Afinal, quem recebe... bem, quem aceita missão alheia deve cumpri-la... aguarde um instante.”
Dez horas de uma manhã de verão, eu — avessa a madrugar — já caminhava pela rua.
“Olha só, Lu, tão cedo!”
“Oi, irmã! O de sempre, ainda tem leite de soja? Duas xícaras.”
“Claro, claro!” A vendedora de jianbing guozi me passou duas xícaras, depois lançou um olhar a Kevin e perguntou: “E esse rapazinho?”
“Ah, vizinho, irmão mais novo. Kevin, o que vai querer no seu?” De repente me dei conta: um garoto recém-chegado do exterior talvez nem saiba o que é leite de soja, quanto mais escolher recheios para panqueca chinesa...
“Agora tem até recheio de massa frita, quero de tudo! De folhas crocantes e tofu!”
Olhei surpresa para Kevin — parece que conhece algo da cultura do país.
“Lu, hoje é por minha conta. Agradecimento por comer meus jianbing por meio ano sem enjoar.”
“Então aceito, com prazer!”
“E o meu, irmã? Também é grátis?” Kevin deu um passo à frente, piscando com doçura, olhos quase marejados.
“É grátis, sim! Que idade tem? E que rapaz bonito!”
“A senhora também é muito bonita!”
“Ai, que menino simpático! Parece ser mais novo que a Lu, devia me chamar de tia, não de irmã!”
Os dois já engatavam conversa, e o sono me abandonou, de surpresa.
“Mana Lu, nesses dias já percebi que você não é de muitas frescuras, mas hoje, vendo como come, percebo que meu conhecimento era raso.”
“Cof, cof...” Quase cuspi fios de tofu. Ele deve ter lembrado da nossa primeira vez. Preciso impor respeito. Ele parece ter a idade dos meus alunos, e para lidar com adolescentes, experiência não me falta.
“Kevin, quantos anos tem?”
“Dezesseis completos, por quê, mana Lu?”
“Hum, cof, cof! Preciso enfatizar uma coisa.” Limpei a garganta, abaixando a voz. “Pode me chamar de irmã, mas tire esse ‘Lu’. Fica parecendo apresentadora de programa infantil. Talvez nunca tenha ouvido falar da ‘Irmã Lua’, da ‘Irmã Juping’...”
“Ah... entendi. Só chamo de mana, então.”
“Tem certeza?” Ele balançou a cabeça, e fiquei surpresa com sua rapidez em aceitar novidades. Rapidamente, lancei a segunda advertência: “Sou dez anos mais velha que você, então nada de irreverências.”
“Sério? É tão velha assim? Nem parece!”
“Cof, cof...” Mais uma golfada de sangue — não posso mais beber leite de soja conversando com esse garoto, é perigoso.
“Mana, posso perguntar uma coisa?”
“Diga, sem reservas.”
“Primeiro, queria dizer: não precisa usar tom arcaico só para mostrar que é mais velha. E... você comeu mesmo jianbing por meio ano?”
“Ah, isso? Foram só quatro meses, um semestre, descontando feriados. Mudei-me para cá há menos de meio ano.”
“Quatro meses?” Ele arregalou os olhos, quase transformando a pálpebra simples em dupla. “E não enjoou?”
“Enjoar do quê?” Olhei para sua expressão de quem não conhece o mundo, quase rindo. Só depois, ao contar a outros, percebi que o engraçado era eu. Mas na hora, expliquei: “Para ir ao trabalho, saio pelo beco leste, ando menos de quinhentos metros até o metrô. Tem três bancas de café da manhã: a do leste vende pãezinhos, muito bons, como às vezes à noite, mas fica a trezentos metros — perderia dois trezentos metros e acordar cinco minutos antes, não compensa. Aquela ali no começo do beco vende mingaus variados, mas exigiria vinte minutos a mais, menos ainda viável. A irmã só tem um quiosque, mas é no nosso caminho, é só pegar, fácil de levar. Pago sempre na véspera, pego de manhã. Meu horário antecede o pico, então não atraso a viagem.”
E olhei para ele: “Como como rápido por isso: a esse passo, chego ao metrô, termino de comer e não atraso na revista.”
“Uau!” Ele, ao ouvir, bateu palmas com entusiasmo, e elogiou: “Verdadeiramente, uma ação fluida, perfeita, sem falhas!... Mana, terminei de comer...”
Só então percebi que já estávamos na estação, e eu ainda com metade da panqueca — sem qualquer compostura, devorei o resto apressada.
Mesmo depois de voltar do supermercado, o espanto não me abandonava. Jamais esquecerei a expressão da caixa ao somar as compras.
“Quanto disse?”
“Seis mil, trezentos e setenta e oito yuan e cinquenta.”
“...Quanto?”
“Seis... mil... trezentos... setenta e oito... e cinquenta...” A caixa, impaciente mas sorrindo do valor, repetiu.
Virei-me para Kevin, a boca trêmula, e só depois de um tempo consegui perguntar: “Kevin... o que você comprou?”
Ele, porém, desdenhou o valor, lançou um olhar ao recibo e assentiu com indiferença. Talvez tenha sido a maior soma que já gastei num supermercado... Agora entendo a generosidade do velho Lou ao me dar cem mil.
Sentada ao sol no pátio, observava Kevin desembalar dezenas de sacolas. Comprou tanto que o supermercado entregou em casa.
“Mana, é que acabei de me mudar e faltava quase tudo. E percebi que a cozinha não tinha utensílios... Você não sabe cozinhar, não é?”
Eu, pronta para repreendê-lo, acabei sentindo vergonha.
“Ah, não!”
Não resisti e dei um tapinha com força em sua cabeça.
“Mana! Não se bate na cabeça!”
“O certo é: não se bate no rosto.”
“Minha mãe sempre disse: ninguém deve bater na minha cabeça.”
“Olha só, sua mãe é inteligente... Sabe que você já não é muito esperto, e, se baterem, aí é que estraga de vez.”
Sem perceber, ficamos íntimos — ainda que o modo fosse pouco ortodoxo.
“Não é que eu não saiba cozinhar, só não tenho vontade. Para que tantos utensílios?”
“Já que você não cozinha, sou obrigado a me virar.”
“Você... sabe cozinhar?” Quase deixei o queixo cair.
Ele deu de ombros, como se fosse trivial. Olhou o relógio e disse: “Já está na hora do almoço, não peça delivery hoje. Prove minha comida.”
Olhei para o saco do Meituan esquecido na porta e corei.
“Mana, tem uma escova de dentes no saco de compras, vi que esqueceu de comprar. Vá escovar os dentes.”
Naquele momento, quis enfiar-me num buraco. Dois dias antes, sem aviso prévio da dona Wang, dois desconhecidos entraram com malas na casa. Quase me armei, mas o telefonema da Wang esclareceu: eram os novos inquilinos, um senhor e um rapaz. Cumprimentei-os, lembrei da minha escova, mas, constrangida, joguei-a no lixo. Depois, com preguiça de sair para comprar outra, e o delivery não atingia o valor mínimo, fiquei só no enxaguante bucal... Não esperava que o garoto lembrasse, nem que notasse que eu não escovei os dentes hoje...
Entre vergonha e um calorzinho no peito, olhei para seu vulto ocupado — seria eu a cuidar dele, ou ele de mim?
Antes do almoço, lembrei de ligar para casa — algo que esquecera no dia anterior. O vídeo atendeu quase instantaneamente.
“Deixe o papai ver se emagreceu!”
O velho Lu enfiou a cabeça na tela, bloqueando a visão da mamãe Yue, que, como esperado, lhe deu dois socos.
Mesmo assim, ele insistiu em ver a filha, até que os dois se sentaram, ambos com a cabeça enfiada na tela.
“Deixe-me ver a vovó.”
“Xixi.” A voz da avó já mal saía, mas ela ouvia com atenção e sorria, não importando o que eu dissesse.
Após um barulho de porta, ouvi o velho Lu gritar: “Lu Yuheng, empresta o computador!”
Lu Yuheng bateu a porta do quarto.
“Xiao Heng...” murmurou a avó, enquanto ele estendia o computador, fechando a porta de novo com estrondo.
Com o vídeo no novo computador, agora todos me viam.
Depois de muitas recomendações de cuidados para o verão, minha mãe desligou o vídeo, a contragosto.
Ao voltar-me, vi em Kevin um olhar de inveja e tristeza, uma emoção indefinida. Mas, ao encontrar meu olhar, ele dispersou o sentimento num instante, vestindo o mesmo sorriso terno que mostrara durante o dia.
Foi então que percebi... esse garoto tinha algo de misterioso.