Capítulo Dois O Templo de Nova Iorque
Diante do semblante preocupado de Richard, Gu Zhongyan recobrou o ânimo, balançou a cabeça com firmeza, esforçando-se por manter-se lúcido.
— Não é nada, apenas um pouco de cansaço. Basta um descanso e logo estarei bem.
— Tem certeza? — Richard lançou-lhe um olhar desconfiado. — Cara, essa não é a primeira vez. Você está realmente bem? Não quer consultar um médico?
Gu Zhongyan deu um leve soco no ombro de Richard, sorrindo:
— Fique tranquilo, eu sei o que estou fazendo. Não há problema algum.
— Certo — retrucou Richard —, mas se daqui a dois dias você continuar assim, precisa mesmo ir ao médico, OK?
— OK, eu prometo — Gu Zhongyan assentiu vigorosamente.
Essa condição não haveria de se prolongar, pois ele já havia decidido como solucionar o problema.
No fim de semana, os primeiros raios da manhã se espalhavam sobre as altas edificações de Manhattan.
Gu Zhongyan, raro em sua lucidez, atravessava as ruas movimentadas, detendo-se diante de uma construção antiga e imponente.
A edificação não chamava atenção; externamente, era apenas um prédio comum de três andares, com paredes desgastadas, portas e janelas cerradas, e no topo, um símbolo reminiscentemente semelhante ao da rede elétrica nacional chinesa.
Este era o número 177A da Brick Street. Para os aficionados da Marvel, havia outro nome: o Santuário de Nova York.
Ali residia o Quartel-General do Supremo Mago, um dos lugares sagrados do mundo mágico da Marvel.
A magia que Gu Zhongyan não conseguia restaurar obrigou-o a arriscar-se, buscando neste local uma solução para recuperar seu poder.
Embora assentado no coração de Manhattan, nenhum dos transeuntes parecia notar a edificação. Gu Zhongyan sabia: o Santuário de Nova York estava protegido por feitiços semelhantes ao encantamento repelente de trouxas, tornando-o invisível aos não iniciados; mesmo que alguém o percebesse por acaso, logo o esqueceria, graças à magia.
Todavia, o feitiço de ocultação ali era mais profundo que o do mundo de Harry Potter; tangenciava o tecido das dimensões, quase separando-o do mundo ordinário.
Ainda que privado de seu poder, Gu Zhongyan fora um dos mais poderosos bruxos do universo de Harry Potter, e podia sentir a força colossal encerrada naquele santuário.
Tomando fôlego, ele se dirigiu à porta do santuário. Prestes a bater, ouviu um rangido, e as portas de madeira se abriram lentamente para dentro.
No salão antigo e misterioso, repleto de quadros e vasos que exalavam história e magia, uma mulher de cabeça raspada, vestida com simplicidade, estava sentada de costas para Gu Zhongyan.
Ela verteu lentamente água do bule em uma xícara.
— Perdoe-me por tomar a liberdade de preparar chá preto inglês; espero que agrade ao seu paladar.
Gu Zhongyan já esperava encontrar-se com a Anciã. Como guardiã da Terra, uma das mais poderosas supremas magas, ela possuía o dom de perscrutar o multiverso e prever o futuro.
Antecipar sua chegada não era algo difícil de compreender.
Ainda assim, ao ouvir as palavras “chá preto inglês”, o coração de Gu Zhongyan não pôde evitar um sobressalto.
Afinal, aos olhos da Anciã, ele, comparado aos deuses malignos de outras dimensões, não diferia muito além de poder e intenção.
Especialmente porque, da presença dela, emanava uma força mágica sem igual.
Era algo que ele jamais poderia comparar; a diferença entre ambos era como a de um riacho e o oceano.
A mera presença dela agitava os elementos mágicos ao redor, deixando Gu Zhongyan, desprovido de magia, um tanto perdido.
Logo, porém, ele recuperou a compostura, convencendo-se de que, se a Anciã pretendesse prejudicá-lo, nem teria chegado ao santuário; provavelmente teria sido eliminado no instante de sua travessia.
Inspirou fundo, sufocando o nervosismo, dirigiu-se à frente da Anciã e falou:
— Mestra, eu vim...
— Não tenha pressa, sente-se primeiro. Posso chamá-lo de Sean? Sei que sua idade é maior do que aparenta, mas creio que ainda assim sou mais velha. Não estou certa?
A brincadeira da Anciã fez Gu Zhongyan hesitar, mas assentiu e sentou-se diante dela.
Ela lhe ofereceu uma xícara de chá.
— Experimente. Creio que minha habilidade ainda não decaiu.
Gu Zhongyan recebeu o chá e tomou um gole em silêncio. O aroma intenso e o calor do chá preto desciam pela garganta, aquecendo-lhe o estômago e relaxando o corpo tenso dos últimos tempos.
— Obrigado, está excelente — disse Gu Zhongyan.
O sorriso da Anciã alargou-se.
— Afinal, esta é a quinquagésima sexta tentativa. Para acertar seu gosto, não foi tarefa fácil.
Gu Zhongyan ergueu levemente as sobrancelhas; como imaginara, a Anciã já o observara na linha do tempo mais de uma vez.
— Sean, conheço seu propósito, mas lamento que seu futuro não esteja em Kamar-Taj; minha magia não se adapta a você.
O olhar sério da Anciã fez o coração de Gu Zhongyan afundar, prestes a protestar, mas ela ergueu a mão e o interrompeu.
— Embora a magia de Kamar-Taj não seja adequada a você, isso não significa que sua vinda hoje seja inútil. Há um antigo provérbio chinês: “A pedra da montanha pode afiar o jade”.
— A magia de Kamar-Taj não lhe convém, mas pode servir de inspiração para ajudá-lo a encontrar seu próprio caminho mágico. Se desejar, posso lhe oferecer alguns grimórios de Kamar-Taj.
— Contudo...
— Contudo o quê? — apressou-se Gu Zhongyan.
— Você sabe qual é o propósito de Kamar-Taj? — retrucou a Anciã.
Com um gesto, ela traçou no ar filigranas douradas, que se entrelaçaram e formaram uma Terra giratória.
— Este é nosso planeta, a Terra. No espaço dimensional múltiplo, ela ocupa posição crucial, e desde os primórdios, deuses malignos de vários domínios tentaram invadi-la e devorá-la.
— Por isso, magos supremos de todas as eras fundaram Kamar-Taj, construindo santuários em três nodos mágicos da Terra para repelir a invasão dimensional.
À medida que a Anciã falava, três complexos círculos mágicos se expandiam a partir de Londres, Nova York e Hong Kong, formando uma barreira poderosa.
Mesmo com sua erudição mágica, Gu Zhongyan não conseguia decifrar sequer um por cento da complexidade daqueles círculos.
— O Supremo Mago é o guardião dos três santuários; a magia de Kamar-Taj existe para esse fim.
— Posso lhe dar grimórios de Kamar-Taj para inspiração, mas não será uma oferta unilateral, e sim uma troca.
— Em contrapartida, espero que, em ocasião oportuna, possa me ajudar — ou ajudar Kamar-Taj.