Capítulo Sete: Arrombando a Porta
"Jade, Pérola, ainda não ampararam Sua Alteza? Vocês conhecem bem a gravidade de seus ferimentos." Su Jingluo retirou uma agulha de prata, pronta para exercer sua arte médica.
"Não é necessário. Eu mesmo posso cuidar disso. Levem logo o inútil da família Su de volta." Apesar da dor lancinante que o assolava, com o corpo inteiro tremendo, Xiao Xuanyi recusou o socorro de Su Jingluo.
"Você..." Su Jingluo quis ainda dizer algo, mas Xiao Xuanyi logo fechou a cortina, e o cocheiro, suavemente, ergueu as rédeas, conduzindo a carruagem em direção ao Palácio do Duque.
"Esse homem é mesmo teimoso como uma pedra, merece cada ferida que carrega! Eu não me importo, mas ele faz questão. Pois que sofra, quem sabe morre de dor." Su Jingluo, inconscientemente, levou a mão ao pescoço, ainda sentindo uma leve dor. Olhou por entre as cortinas, mas Xiao Xuanyi já havia desaparecido sem deixar vestígio.
Deve ser que ele não queria que ela presenciasse seu momento de fraqueza, por isso partiu antes.
Quando a carruagem sumiu diante dos portões do palácio, Xiao Xuanyi, envergando seu traje escuro, lentamente voltou a mostrar-se. Suor escorria-lhe pelo rosto, a mão direita apertava o ventre, ajoelhado em meio à noite, o semblante de uma palidez extrema, fios de sangue escorrendo entre os dedos.
Com a mão esquerda trêmula, retirou algumas pílulas do bolso interno da manga e levou-as à boca. Permaneceu ali por mais um tempo até, por fim, erguer-se devagar, o semblante inabalável, ainda que austero.
Um veneno tão letal, só alguém de poder interno extraordinário como ele seria capaz de resistir por meio da força, enquanto um homem comum já teria sucumbido no momento do envenenamento.
Mesmo assim, nem os melhores médicos do palácio poderiam ajudá-lo, recorrendo apenas a medicamentos raríssimos para retardar a progressão da toxina.
"Su Jingluo... Que tipo de pessoa você é, afinal?" O olhar de Xiao Xuanyi voltou-se, enigmático, na direção do Palácio do Duque Su.
Recordou-se de como, instantes antes, apertava com força o delicado pescoço dela, e, no momento seguinte, ela ainda buscava salvá-lo com sua arte médica, sem sombra de sarcasmo ou arrogância. O olhar cortante dele suavizou-se, surpreendentemente, por um instante.
"Atchim!" Su Jingluo espirrou forte dentro da carruagem.
No Salão de Pimentas, a Imperatriz, com os cabelos em desalinho, exalava ira não apaziguada. Algumas criadas, silenciosas, recolhiam os cacos de porcelanas raríssimas e antiguidades espalhadas pelo chão do grande salão.
"Su Jingluo, você não passa de uma miserável esquecida do Palácio do Duque, ousa replicar a mim? Como ousa almejar o meu filho, o Príncipe Yi? Se deseja a morte, eu mesma a concedo!" O semblante da Imperatriz mostrava-se cruel, em nada lembrando a nobreza e dignidade que ostentava em dias comuns.
As criadas, apavoradas, não ousavam replicar, temendo atrair para si o furor da soberana.
"Xiao Xuanyi..." Ao lembrar-se do irmão do imperador, um traço de temor cruzou o olhar da Imperatriz. Não era só ela; mesmo o imperador lhe concederia deferência.
Su Jingluo, porém, não se importava com o que a Imperatriz pensava. Afinal, a antiga dona daquele corpo era humilhada em todos os lugares. O que lhe cabia agora era transformar sua própria sorte e conquistar, enfim, um lugar naquele círculo hostil.
"Jade, Pérola, vamos dar uma volta antes de voltarmos." Su Jingluo suspirou suavemente, brincando com um pequeno adorno da carruagem.
O Palácio do Duque era, para ela, terra de perigos. Não tinha de enfrentar apenas as maquinações de Su Jinglian e da madrasta, mas também o próprio pai, Su Changren, homem interesseiro, parcial e de sangue frio.
Naquela casa, nem sequer valia quanto um criado.
"Senhorita, agora é toque de recolher, não há nada aberto no mercado." Jade, embora fosse uma guarda secreta, era, à vista de todos, apenas criada de Su Jingluo, e seu temperamento vivaz a fazia sempre responder primeiro.
"Então, vamos regressar." Su Jingluo desejava conhecer o fervor dos mercados antigos, mas, diante da resposta, só lhe restou resignar-se.
Ao chegarem ao portão do Palácio do Duque, Pérola desceu da carruagem e ergueu a cortina de lado. Su Jingluo sorriu levemente, inclinou-se e saltou, caminhando em direção ao portão principal.
"Abre!" Su Jingluo bateu à porta e aguardou do lado de fora.
Um dos criados, que montava guarda, despertou sobressaltado, cambaleando até a tranca. O outro, ao perceber, apressou-se em detê-lo.
"Está maluco? Quem manda agora é a Madame e a Segunda Senhorita. A Mais Velha já não tem prestígio, e o Senhor já ordenou: ela não pode entrar."
"Ah, é mesmo. Obrigado por lembrar, irmão. Vou voltar a dormir." O criado aconselhado se escondeu atrás da porta, retomando o sono.
Su Jingluo permaneceu do lado de fora por um bom tempo. Não conseguia ouvir a conversa dos criados, mas intuiu o bastante, afastando-se alguns passos.
Pérola e Jade, embora intrigadas, mantiveram a postura, abrindo caminho com naturalidade.
"Acham que sou ainda a antiga Su Jingluo? Estão redondamente enganados." Su Jingluo sorriu com frieza, concentrando energia no lugar.
O quê? Suas acompanhantes, treinadas como guardas secretas de Xiao Xuanyi, logo perceberam algo diferente.
Com um rápido movimento, Su Jingluo avançou, ergueu o joelho e desferiu um potente chute.
A porta estremeceu com estrondo, ecoando na noite silenciosa. Até Su Changren, que caligrafava em seu escritório, sobressaltou-se, deixando cair gotas de tinta sobre o papel.
"É mesmo resistente. Jade, Pérola, arrombem comigo." Os olhos de Su Jingluo semicerraram-se, e ela ordenou.
"Sim." Jade e Pérola trocaram olhares e, em uníssono, desferiram outro golpe contra o portão.
Desta vez, não só os da casa se alarmaram; até a guarda das ruas foi alertada.
"Prendam-nos!" O capitão, ao ver alguém criando tumulto nas proximidades do palácio imperial, e ainda em sua jurisdição, ordenou imediatamente.
Su Jingluo voltou-se e sorriu para os soldados que corriam em sua direção.
"Alto. Retirem-se. Isto é assunto da Casa do Duque Su."
Reconhecendo Su Jingluo, o capitão esboçou expressão estranha, mas ordenou a retirada da tropa, que partiu em patrulha por outras bandas.
Que estranho, o que teria acontecido à inútil da família Su para ousar arrombar, em plena noite, o portão do próprio palácio? Eis o maior enigma a inquietar o capitão da guarda.
O som estridente dos chutes ecoava pelo palácio, enquanto os dois criados, apavorados, não sabiam se deviam abrir ou não.
"Filha rebelde!" Su Changren, já vestido, apanhou o leque e saiu apressado de seu escritório. Os criados, armados de bastões, também acorreram ao portão. Contudo, quem chegou primeiro foram Su Jinglian e sua mãe, ansiosas por presenciar a desgraça, aguardando pela chegada de Su Changren.
"Ainda não abriram? Jade, vai buscar um martelo. Hoje, talvez, o Palácio do Duque precise de uma porta nova." Su Jingluo não se intimidava, certa de que a porta acabaria cedendo.
"Abre!" Su Changren tomou um bastão de um criado e ordenou a abertura.
Os dois criados, agora autorizados, destrancaram a porta às pressas.
"Filha ingrata! Ainda quer arrombar a porta? Vais macular de vez o nome do Palácio do Duque?"
"Papai, olha só o que a irmã fez, chutou nossa porta! Como os outros nos verão depois disso?" Su Jinglian, fingindo-se de coitada, não perdeu a chance de lançar mais lenha à fogueira.